sexta-feira, 30 de maio de 2014

Parto violento: mais comum do que podemos imaginar

No momento da vida em que nós estamos experimentando sentimentos e sensações desconhecidos e misturados, tudo do lado de fora deveria conspirar para que nosso interior se acalmasse. Mas na grande maioria das vezes não é isto o que acontece. 

Comigo aconteceu assim, uma bagunça. Me preparei psicologicamente para que fossem partos naturais e os dois foram cesáreos. Cada um com seu motivo. No primeiro, já perdendo líquido, cheguei assustada e sequer fui orientada. Ao contrário, fui humilhada, ignorada, por técnicas de enfermagem e enfermeiras da maternidade do Hospital Santa Juliana. Ouvi piadinhas do tipo "na hora de fazer não reclamou" e "agora não adianta chorar". Oito horas depois e sem nenhuma dilatação o médico Eduardo Hadad, graças a Deus, me salvou e salvou meu filho após me examinar e decidir pela cesariana. Mesmo com toda a situação, lembro do tom de indignação dele por ter sido avisado tão tarde pela enfermagem. Ele nem sabe, mas sou grata até hoje por esta caridosa e humana intervenção verbal.

Depois que o Ariel nasceu, com dificuldades para amamentar, sem o apoio de ninguém, ouvi a frase que mais me chocou e que me deixou impactada durante anos buscando uma resposta tardia para este comentário cruel: "bem se vê que você não está preparada para ser mãe". Me indaguei durante muito tempo sobre o que é "estar preparada para ser mãe".

Já o parto da Ana Cássia foi todo diferente. Com temores e silêncios. Com palavras de assombro de um médico que prefiro nem citar o nome e que havia sido escolhido por mim para fazer parto e pré-natal. Depois da cirurgia feita, ele sumiu. Não houve uma palavra de conforto. Nada. Então se é assim, prefiro lembrar da diva-linda-loira-e-maravilhosa da Dra. Grace Mônica Alvim Coelho de Araújo Rocha (até o nome é divo) , que nem sabia quem eu era e se portou como a verdadeira - a mais dedicada - profissional de saúde me amparando, orientando, cuidando de mim e da minha filha na Maternidade Bárbara Heliodora. Ela é a melhor lembranças do pós-parto.

Foto publicada no site Bolsa de Mulher. Reportagem "Violência na hora do parto".

Esse post foi motivado por uma reportagem muito dura que acabei de ler. São depoimentos fortes. Outras mulheres passaram por isso. Muitas se calaram por vergonha, medo, por terem ficado em estado de choque. Imaginem quantos traumas todos os dias são gerados pelo atendimento nada humanizado de profissionais de saúde, tanto da rede pública quanto da rede privada. E o terror começa no pré-natal. Antes de consultas, vacinas, roupinhas de bebê, deveríamos buscar informação sobre nossos direitos.

Cliquem aqui e vejam a reportagem publicada no site Bolsa de Mulher.

Algo parecido aconteceu com vocês? Comentem.

2 comentários:

  1. Quando estava grávida li várias e várias histórias assustadoras de partos de todo tipo: normais, cesáreas e humanizados sem humanidade nenhuma. Senti medo, receio e pavor antes de chegar a minha hora mas, ainda bem, tive atendimento, amparo e a companhia do marido e isso fez toda a diferença.
    Acho que também tive um tanto de sorte pq passar situações como as tantas que lemos ou mesmo ouvir que você, ali parindo, não está preparada pra ser mãe não deve ser fácil.
    Contei minha história toda no meu blog, se quiser dá um pulinho lá (cdavanzo.blogspot.com) estou adorando o seu!! Bj

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  2. É bem assim mesmo. A mulher já chega ao hospital toda requenguela, com dores, aquele aguaceiro descendo, um turbilhão de dúvidas e medos tomam conta. Aí vêm as parteiras, os enfermeiros, os médicos, todos cansados e mal humorados. E o que temos com isso? Queremos parir!! Tive minha primeira filha aos 21 anos. Cheguei ao Santa Juliana com fortes contraçoes e mandaram eu voltar para casa, porque não 'estava na hora'. Quando cheguei à casa de minha mãe ela olhou para mim e disse: vamos voltar para o hospital, senão teremos problemas. Até aquele momento eu era uma paciente do SUS. Fiquei numa enfermaria com mais umas três moças se retorcendo de dor. Ali todas eram tratadas como culpadas e a vergonha predominava naquele quarto cheio de macas. Fui submetida a uma lavagem porque seria um parto normal. Minha mãe ficou tão aperreada com a ausência e falta de notícias da filha que resolveu pagar o parto e a estadia em apartamento. A partir daí tudo ficou rosa. Um tratamento totalmente diferenciado, com direito a sorrisos e palavras de alento. A sensação de entrar num matadouro foi diluída aos poucos. Eu tive sorte por ter uma mãe tão cuidadosa numa hora tão delicada. Esse negócio de humanização parece brincadeira, mas é muito sério.

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